ENGENHEIROS AGRÔNOMOS: ACORDEM!…

Louvores à performance da agropecuária brasileira. Um caso ímpar de sucesso. O setor que produz, emprega e mantém ganhos de crescimento. Em menos de cinquenta anos, o Brasil passou de importador para ativo exportador de alimentos. A segurança alimentar para todos é um corolário da paz. A fome persiste pela desigualdade de renda que limita os pobres em adquirir alimentos na quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde – OMS.

Entre outros atores, é reconhecido o papel dos engenheiros agrônomos nessa aventura vitoriosa. Merecedores, homens e mulheres, de comemorações em 12 de outubro – “Dia do Engenheiro Agrônomo”.Uma profissão regulamentada pelo“Decreto Nº 23.196, de 12 de outubro de 1933”. Reza serem esses profissionais capazes de “realizar análises científicas, identificar e resolver problemas, operar, modificar e criar sistemas agropecuários e agroindustriais”. A sociedade era então rural, os latifúndios improdutivos, a “terra” uma reserva de valor, a agricultura de monocultivos (cana-de-açúcar e café) e a pecuária extensiva.

No tronco principal do currículo escolar dos engenheiros agrônomos, constavam as disciplinas de abrangência geral, como agricultura, zootecnia, silvicultura, engenharia rural, desenho, topografia, mecânica agrícola, estatística experimental, genética, melhoramento de plantas e química agrícola, entre outras. A seguir, surgiram as disciplinas de conteúdo específicos, a exemplo da fruticultura, biotecnologia vegetal, bioquímica dos solos, hidroponia, planejamento e gestão do agronegócio, horticultura, sociologia e extensão rural. Eram profissionais formados na lógica simples e unilateral da utópica trajetória da “produção ao consumo”. Antes da reforma universitária de 1968, oriunda do“Acordo MEC-USAID”, o ensino universitário era seriado, diferente da atual semestralidade com disciplinas obrigatórias e eletivas.

Na sociedade atual,urbana, competitiva e complexa, é comum a convivência com a“síndrome de burnout”, um distúrbio psíquico ligado à atividade profissional, em decorrência da abundância de informações, alienação e contradições nos encaminhamentos e respostas desejadas na produção e nos negócios. Na agricultura brasileira, por exemplo, predomina de um lado, um mundo rural, como palco de transformações na cadeia de valor; do outro, um mundo urbano consumidor e demandante de mudanças no modo de produzir em qualidade e quantidade. As tecnologias em uso, carregam também contradições, como a rápida acumulação em certas produções e limitado controle social da tecnologia adotada. Enquanto em outras realidades, as tecnologias acumulam menos, mas conseguem um maior controle social sobre elas.

Nesse tempo de “mudança de época”, destaca-se a inserção da agricultura brasileira na chamada “Quarta Revolução Industrial”. Uma arena competitiva por mercados exigentes e protecionistas, os quais exigem em tempo real inovações tecnológicas de última geração, algumas delas com parâmetros estabelecidos “fora da porteira da unidade rural”. O fator tradicional de produção, a “terra”, diferente da“tecnologia”, contribui com menos de dez por cento do crescimento da produção da agricultura. A logomarca mudou do “arado de aiveca”, movido pela força motriz animal, para o “trator”, de energia intensiva em capital, até sem motorista e guiado à distância. Atualmente,não ostenta um símbolo material da profissão, masas seis letras “A”, das Associações filiadas à FAEAB – Federação das Associações de Engenheiros Agrônomos do Brasil.

As exigências do novo modo de produção da agricultura, forçou o desmembramento de atribuições tradicionais do engenheiro agrônomo para profissões independentes e especializadas. Atividades antes ocupadas por engenheiros agrônomos, são agora delegadas para profissionais da engenharia agrícola, ambiental, florestal, agrimensura e de alimentos, ou mesmo, pela transferência top-downde “pacotes tecnológicos”.  Em consequência, surgiram as seguintes questões: “A formação do engenheiro agrônomo ainda corresponde às demandas atuais de uma agricultura financeirizada e baseada em ciência?” e“Qual o perfil curricular apropriado para o engenheiro agrônomo atuar no laboratório, na sala de aula e no campo,numa sociedade com uma pujante e complexa agricultura, contradições sociais e enormes desigualdades de renda?

Quão difícil é reformar conceitos e labores das próprias profissões, com história, sentimentos,vitórias e conquistas. A força das corporações, os interesses privados e os apetrechos mentais dificultam apreender as velozes transformações em curso nas agriculturas. No dizer de um brochado francês,“os fatos se revoltam contra os códigos”. Os fatores em uso nos sistemas produtivos, não atualizam em similar velocidade com a maioria dos currículos acadêmicos do engenheiro agrônomo, a exemplo da transgenia, da clonagem, dos alimentos funcionais, da internet das coisas, da agricultura de precisão, do mapeamento de genomas, do empreendedorismo dos produtores rurais e da globalização, entre outros determinantes da produção capitalista da agricultura.

Apreciar a produção da agricultura brasileira apenas como uma atividade conectada com os mercados globais em tempo real, será o mesmo que louvar a reprodução do ameaçado trabalho do engenheiro agrônomo,lastreado em conteúdos que limitam a sua atuação em diferentes e complexas realidades das diversas agriculturas: familiar, orgânica e a tipicamente empresarial. Para todas elas, o futuro chegou. Do tradicional e romântico engenheiro agrônomo majoritariamente masculino, insultado como viril, resistente às intempéries do tempo e limitado ao labor agrícola, restam saudades de um tempo, onde a juventude sonhou com uma sociedade renovada, justa, libertária e solidária.

 

Fonte: Manoel Moacir C. Macêdo; Manoel M. Tourinho e Zander Navarro,são engenheiros agrônomos

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